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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Desejos vãos  
Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o sol, a luz intensa
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o mar também chora de tristeza...
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos céus, os braços, como um crente!

E o sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as pedras... essas... pisa-as toda a gente!...



Florbela Espanca 

sábado, 5 de janeiro de 2008

Atracção


"Ela é uma daquelas raparigas que adora fazer sexo - às vezes, pensa que é uma rapariga indecente porque essa imagem a diverte. Possui uma veia de sangue sensualmente mau, inculto e descontrolado. Mas há meses que não há ninguém e também nunca ninguém esteve naquela casa. Vivia uma vida de penitente desde que ali chegara, àquele subúrbio silencioso, onde as viúvas vivem os restos esfarrapados das suas vidas e as árvores atingem alturas majestosas. Contudo, à noite, ela é, por vezes, visitada por um calor furtivo, sub-reptício que a invade, uma força arrogante que a possui de dentro para fora e se extingue com uma dissipação quando atinge o clímax, que a deixa inâmine na cama com a rata a latejar e a respirar superficialmente". (in "Atracção")




É incrível como certos excertos de livros, podem-nos remeter à nossa própria existência. É como se estivessemos a ler sobre nós próprios...